domingo, 2 de janeiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

POESIA-DIA-A-DIA


É difícil viver em poesia

que a poesia ausenta-se. Desaparece. Foge.

E quer ser ontem ou amanhã. Recusa-se a ser hoje

a poesia dia-a-dia


É preciso deitar-lhe a mão

dizer-lhe que não fuja

e não seja evasão

Que venha mesmo assim: mesmo suada mesmo suja

mesmo dor de cabeça náusea transpiração

e se não quer ser cantar que deixa de ser ave e ruja

cá dentro - no coração.

O que é preciso é que ela não se ausente.

Que seja dissonância ou melodia

mas que esteja presente

dia-a-dia


Mesmo que não tenha rima ou seja errada a métrica

mesmo que não fale das coisas da poesia

mesmo que não seja poética

o que é preciso é poesia dia-a-dia


Sobretudo nas horas em que tudo

de repente se esvazia

e pesa mais que tudo esse vazio

sobretudo

quando o fogo se torna fogo frio

e pesa (de vazio) o dia-a-dia

é precisa (mais que tudo) a poesia


Manuel Alegre, O Canto e as Armas

1 comentário:

  1. É preciso, mais que tudo, que o poeta da poesia dia-a-dia... vá à segunda volta!!!

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