quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

LA FOLLE DU LOJIE

Esta manhã no duche, que é a minha forma de começar os dias como quem anda à chuva, lembrei-me da D. Otília, não propriamente dela mas das minhas brincadeiras solitárias no sótão da sua casa.

A D. Otília, que era casada com o senhor Tonecas, cujo nome eu achava mais bonito para um gato do que para aquele homem gorducho e pouco simpático, que à falta de clientes dormitava no táxi que conduzia, era a modista da minha mãe e morava na Rua D. Carlos I, no número dez, em Sismaria da Gândara.

As visitas a sua casa eram sempre demoradas porque implicavam o desfolhar lento de figurinos, o apalpar de tecidos, mede aqui, mede acolá e uma conversa sem fim que a mim nada dizia. Se houvesse prova de algum vestido eu adorava ver, porque a D. Otília tinha um aparelho interessantíssimo com o qual acertava a altura das saias das senhoras. Funcionava com pó de talco. Ela marcava a altura que a saia deveria manter até ao chão numa espécie de régua, enchia um balão de borracha com pó de talco e depois ia-o pisando e através de um tubo que expelia o pó, ficava no tecido da saia marcada a tracejado a altura pretendida. A minha mãe parecia a Terra no movimento de rotação e a D. Otília um deus todo-poderoso a traçar o paralelo de uma longitude desconhecida. Mas se não houvesse prova… que enfado! Então a D. Otília deixava-me ir brincar para o sótão.

O sótão da D. Otília era um espaço amplo a todo o tamanho da casa onde o que mais me encantava era a caixa da máquina de tricotar. Sim, a D. Otília tinha uma máquina de tricotar e a caixa era um paralelepípedo quadrangular - cavalo indomável que eu cavalgava as horas que duravam as conversas do primeiro andar, arrastando-me sótão fora, como se fora o mais verdejante dos prados.

Anos mais tarde a minha professora de Filosofia ensinou-me, nem sei a que propósito, que alguém, a quem já nem lembro o nome, havia concluído: “L’a imagination est la folle du lojie” (A imaginação é a louca da casa). Saí do duche a interrogar-me “de onde é que tal pessoa me conheceria?”

4 comentários:

  1. Então a menina eclipsava-se!
    Isso acontece sempre que a Lua penetra no cone de sombra projectado pela Terra…
    Gostei particularmente da imagem da Terra a girar no seu eixo.

    ResponderEliminar
  2. ... devias ser fresca, sim senhora!...

    ResponderEliminar
  3. Possuo esta alma de andarilho, que não sei se devo às fadas madrinhas se ao meu bisavô marinheiro. Prefiro pensar que a devo às fadas, para não sentir subjacente a ela a heroicidade da minha bisavó Mariana a educar sozinha os filhos, embora numa região, a de Torres Vedras, de típica influência árabe, onde as mulheres não trabalhavam fora de casa e eram estimadas e cuidadas como as da beira-mar nem sonhavam.
    Esta característica permite-me conseguir que o espírito vogue por "mares nunca d'antes navegados" com o corpo amarrado a qualquer circunstância.

    ResponderEliminar
  4. Para evitar erros de interpretação devo acrescentar que acho que as mulheres não nasceram para heroínas, mas para serem simplesmente isso, MULHERES e os filhos se são concebidos por dois, também devem ser educados por dois a toda a hora em todos os momentos. É difícil quando o trabalho cabe só a um, mesmo utilizando a melhor imagem do outro. A inversa, embora ainda muito rara, também é verdadeira.

    ResponderEliminar