segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

MALDITA SOLIDÃO

Ontem, tirei a tarde para visitar doentes. Num dos sítios onde me dirigi encontrei C., uma senhora que não via há larguíssimos meses, talvez há mais de um ano. Depois de cumprimentar a doente, que felizmente se encontrava bem e muito animada, aconteceu a conversa do costume.

“Há quanto tempo não a via?! Como vai M.? Tanto ela como o marido estavam bem, mas que agora saía muito pouco, entretinha-se muito por casa a tratar dos animais.

“Animais?”, admirei-me, “agora tem animais?” Não é que falte espaço na vivenda de C., situada numa aldeia próxima da cidade, para criar bicharada, mas eu não estava a imaginar C., sem filhos, depois de alguns anos a abdicar de viagens e outros passeios para tratar devotamente da mãe, que falecida esta e conhecendo-lhe os gostos, ficasse presa àquele espaço por causa dos ditos animais.

“O M. está afónico.” “Já percebi,” respondi eu inconsequente, “resolveu dedicar-se à criação de animais exóticos e mandou-o à noite apanhar gambozinos”. C. riu-se, “não, está afónico comigo, já dissemos um ao outro tudo o que havia para dizer. Logo de manhã quando me levanto, trato dos animais, acarinho-os, eles acarinham-me e fazem-me rir e assim entretenho-me lá por casa”.

O que mantém as pessoas tão perto e tão longe? Questionei-me e mudando imediatamente de assunto, a conversa fluiu facilmente por outros temas, tendo em conta que além da doente, éramos mais quatro mulheres naquele quarto hospitalar.

Quando abandonei aquela instituição, a caminho de outra onde pretendia visitar mais uma amiga doente, questionava-me: Será sempre assim? Terá de ser mesmo assim? Porque há-de ser assim?

Somos a Carminho de “O Dia dos Prodígios” esperando o homem que dirá as palavras certas, que depois a vida implacavelmente arrebata, para ficarmos à espera que regresse montado no cavalo verde do nosso encantamento, vivendo afónicas o resto da vida?

“Na vida somos sempre livres e estamos sempre sós.” A expressão persegue-me desde que li Raymond Jean, A Leitora, mas eu ainda acredito que pode ser diferente, eu ainda acredito que o amor pode ser eterno na sua limitação terrena, acredito na cumplicidade de um olhar, no calor das mãos que se tocam, na doçura do abraço, na força das palavras ditas com ternura e que o silêncio entre dois, pode ser um momento sublime porque “há palavras impossíveis de escrever/ Por não termos connosco cordas de violino/ nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo da ar”.

A vida mostrou-me que os homens enrouquecem e vão perdendo a voz ao longo dos anos, mas a alma das mulheres permanece adolescente enquanto, no rosto, as rugas se acentuam.

Meu caro senhor, se está afónico, pegue nas palavras gastas pelo uso, separe as letras uma a uma, lava-as da sujidade dos dias e faça sopa. Coma duas refeições por dia. De preferência ao pequeno almoço e ao jantar. Verá que ao fim de algum tempo das letras, em combinações impensáveis, voltam a fluir facilmente palavras novas. Use-as ao desbarato, não as poupe.

Este remédio funciona melhor que o chá de casca cebola e mesmo que se sinta ridículo, continue. Eu garanto-lhe que a sua esposa achá-lo-á a oitava maravilha do mundo.

3 comentários:

  1. Esta(s) realidade(s) incomoda(m)-me muito!

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  2. Um animal de estimação pode não ser a terapia certa... mas... incontestável é a importância da sopinha. Esta então tem um aspecto deveras tentador.

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  3. Então força! Nunca deixe de comer sopa de letras.
    Bom apetite!

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